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ABEST Entrevista: Dari Santos, presidente do Instituto Alinha





Por Érika Masckiewic

Indignada em saber que havia milhares de pessoas que trabalham em situações análogas à escravidão na indústria da moda, a empreendedora Dari Santos fundou o Instituto Alinha, um negócio social totalmente focado na melhoria das condições de trabalho e de vida de costureiros e costureiras. 

Para entender como funciona o instituto e seus serviço, a ABEST conversou com a presidente do Alinha. Confira a entrevista:

Qual a proposta do Instituto Alinha? 

Trabalhei em uma pesquisa de campo para entender a realidade socioeconômica de imigrantes que trabalham em condições precárias em oficinas de costura; essa pesquisa se transformou em meu trabalho de conclusão de curso. 

Ao conhecer mais a fundo essa realidade, pude entender que essas oficinas precisavam sair da invisibilidade, e serem conectadas com marcas e estilistas dispostos a mudar essa indústria.

A plataforma do Instituto Alinha foi desenhada em 2014 durante a participação no Social Good Brasil Lab, um laboratório pioneiro no Brasil que apoia empreendedores a desenhar e validar ideias que usam tecnologias para impacto social. Vencemos o desafio em primeiro lugar e com o capital da premiação iniciamos a trajetória do Instituto.

Como é feito o trabalho de consultoria do Instituto Alinha nas oficinas?

Oficina Alinhada é uma oficina de costura que foi assessorada pelo Instituto Alinha para atingir os requisitos mínimos de formalização e segurança e, assim, estar disponível para que marcas conscientes possam contratá-las pela nossa plataforma, garantindo preços e prazos justos.

O passo a passo desse trabalho é:

1) Curso de formação empreendedora, em parceria com a Aliança Empreendedora, através do programa Tecendo Sonhos;

2) Dentro do curso de empreendedorismo, os interessados em receber a assessoria se inscrevem e passam pelo processo de avaliação e seleção;

3) Assim que uma oficina é selecionada um agente Alinha visita a oficina para aplicar um questionário de diagnóstico;

4) Em seguida, ele recebe uma visita de uma técnica de segurança do trabalho, sempre acompanhada de uma agente Alinha;

5) Com base no diagnóstico e no relatório técnico de segurança, desenvolvemos um plano de ação, apontando quais são as mudanças necessárias e o custo de cada uma delas;

6) Suporte para o cumprimento do plano de ação, indicando profissionais e empresas que possuem os equipamentos necessários, e cobram preços acessíveis. Nessa fase buscamos sempre a orientação com base no recurso disponível pela oficina, auxiliando também na priorização dos itens;

7) Visita para auxiliar na gestão e precificação justa do trabalho;

8) Assim que cumpre os requisitos mínimos iniciamos a busca de “match” (indicações de marcas) que ajudem na geração de renda;

9) Oficinas ALINHADAS entram para plataforma;

10). Revisitas periódicas. Compliance da Alinha para garantir que tudo na oficina seguem dentro dos padrões de segurança e formalização.

Todo trabalho feito com as oficinas de costura é oferecido gratuitamente, para isso, captamos recursos com institutos, fundações, editais, e prestação de serviços, essa captação determina quantas vagas de assessoria serão abertas às oficinas.

Quantas oficinas credenciadas vocês têm? Como é feito o acompanhamento e quais são os critérios para a oficina se tornar uma Oficina Alinha?

Até hoje atuamos em 58 oficinas de costura, impactando diretamente 228 costureiras e costureiros. O número de oficinas que atingem os critérios mínimos estabelecidos e ficam disponíveis na plataforma varia a cada visita de compliance.

A avaliação da Alinha prevê os seguintes critérios:

#1 Capacitação dos donos de oficina em cursos de empreendedorismo;

#2 Formalização da oficina de costura e emissão de nota fiscal;

#3 Instalações elétricas e infraestrutura da oficina de costura;

#4 Saúde e segurança do trabalho;

#5 Organização do ambiente de trabalho;

#6 Relações de trabalho e combate ao trabalho análogo ao escravo.

Qual a realidade atual do ambiente de trabalho das costureiras? 

Oficinas familiares onde não tem “dono da oficina”, o empreendedor que montou a oficina também é o costureiro, geralmente, junto com seu cônjuge. Dividem a casa com o ambiente de trabalho. A jornada de trabalho chega a 90 horas semanais.

Fiações elétricas instaladas de forma precária, as famosas gambiarras, com extensões e fios sem nenhum tipo de eletrocalha. Como não possuem nenhum tipo de formalização, pegam pedidos quarteirizados por outras oficinas maiores, que retém parte dos ganhos por peça.

Em uma oficina como essa, a média do valor ganho por peça é R$2,00 ou R$3,00. Com isso, mesmo trabalhando em jornadas exaustivas, o ganho do costureiro não ultrapassa R$1200,00. Sendo ainda necessário cobrir os custos do negócio.

Conte um pouco sobre a Etiqueta Alinha. Ela funciona como um selo de qualidade?

Desde o início de 2018 temos trabalhado no re-lançamento da etiqueta Alinha. O projeto visa à utilização da tecnologia Blockchain para mapeamento de cadeias produtivas e compartilhamento de informação descentralizada, garantindo transparência e informação para costureiros, marcas e consumidores.

As marcas terão um perfil para lançar as informações sobre as roupas produzidas. Ao lançar as informações, as marcas deverão selecionar qual das oficinas de costura, cadastradas na plataforma Alinha, será responsável por cada etapa da produção.

Com a informação recebida, o sistema dispara automaticamente uma mensagem para o responsável que deverá então confirmar se foi mesmo contratado, o valor recebido pela costura, além do prazo, ficha técnica e quantidade de peças que acordou produzir.

Assim que as informações cedidas pela marca são confirmadas por todos os prestadores de serviço, as informações são salvas em Blockchain e a marca poderá baixar as TAGS com o código de referência deste “contrato inteligente”.

Todo o histórico da peça poderá ser consultado pelos consumidores – das condições justas de trabalho até a história dos donos da oficina e costureiros que produziram a roupa.

Como o Instituto Alinha vem mudando esse cenário da indústria têxtil e da confecção?

A Alinha muda o cenário da indústria têxtil convidando outras pessoas a mudarem também. Mudarem a forma de produzir e de consumir.

Não há ninguém capaz de mudar a realidade da moda, sozinho. É de extrema importância que todos percebam que somos corresponsáveis pelo problema, seja oficina, marca ou consumidor, mas se o problema passa por todos nós, a solução também está um pouco em cada um.