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Como encontrar formas sustentáveis de se manter competitivo no mercado de moda?




Por Erika Masckiewic

Você sabia que a indústria têxtil é uma das mais poluentes do mundo, perdendo apenas para o mercado de petróleo? Então, como encontrar formas sustentáveis de se manter competitivo no mercado de moda? Conversamos com Silvia Lima e Dani Fantini, empresárias e consultoras da KBSA Inovação Responsável em Moda, que propõe novos modelos de negócios envolvendo a sustentabilidade na moda. A seguir, confira a entrevista:

Qual a proposta da KBSA Inovação? 
A KBSA tem o objetivo de promover uma transformação social nos negócios de moda, por meio da transformação de marcas e seus modelos de negócios em marcas responsáveis, éticas e prontas para competirem no mercado global. Nosso foco é ajudar as empresas a construírem e comercializarem internacionalmente marcas de moda responsáveis, que se conectem com um número cada vez mais crescente de consumidores conscientes, que buscam experiências e propósito acima de tudo.

Quais são os serviços prestados pela consultoria?
Auxiliamos a marca desde a pesquisa de fornecedores éticos, seleção de matérias-primas, produção, estratégia internacional, inteligência comercial, adequação de coleções ao mercado-alvo, formação de preços, posicionamento e representação comercial internacional. Possuimos uma área da KBSA dedicada à realização de cursos e workshops, parte muito importante do processo de transformação. Mais recentemente criamos o  Coletivo KBSA, um grupo de marcas que passará a ser apresentado em lojas internacionais. 

Como uma marca pode se tornar competitiva, mas também sustentável no mercado global? 
Muitos gestores tem uma visão equivocada do que é ser sustentável. É preciso trabalhar com parceiros de negócios, fornecedores e seus clientes para alcançar a sua visão de inovação responsável. Pode-se trabalhar com vários critérios dentro dos ODSM - Objetivos de Desenvolvimento Sustentável do Milênio.

Se uma marca se propõe a começar com, pelo menos, três desses critérios, ela já está no caminho para se tornar e ser reconhecida como uma marca responsável.

Quais são as atitudes iniciais para uma marca se tornar sustentável? 
Gestão de pessoas: pessoas competentes, remuneração justa e boas condições de trabalho proporcionam ambiente saudável e, consequentemente, melhor eficiência no desenvolvimento de suas funções.

Utilização de matérias-primas: atualmente, o Brasil já tem catalogado uma diversidade de recursos em materiais para desenvolvimento de produto, como madeira certificadas, tecidos orgânicos, aproveitamento de resíduos, descarte de sobras de tecidos, papel, entre outros. Optar também por fornecedores que pensem de modo responsável, que cuidem da água, do lixo, da otimização e redução de energia.

Desenvolvimento local: produtores, fornecedores, artesãs, costureiras e demais profissionais da cadeia produtiva da moda. Investir em capacitação e desenvolvimento da comunidade que sua empresa está inserida, é pensar no desenvolvimento econômico local, diminuição da desigualdade social e diminuição da pobreza, uma vez que a capacitação desenvolve, emprega e dá melhores condições de vida ao ser humano.

Como são as etapas do processo de transformação de uma marca tradicional em marca sustentável?
Primeiro, a vontade da transformação. Depois, o gestor deve pensar por onde pode começar, de acordo com o tamanho do seu negócio e o mercado que pretende atuar. Comece identificando três a cinco áreas-chave onde a marca acha que pode ter a maior chance de ter um impacto social e ambiental positivo. Pensar em como projetar seus produtos de forma mais sustentável, investindo em pesquisa e desenvolvimento de materiais com procedência ética ou certificado.

Mas essa transformação terá resultados mais efetivos no médio prazo se a marca estiver interessada em sensibilizar seus colaboradores, fornecedores e consumidores sobre o que é ser responsável. Isso vai determinar as estratégias de gestão, comunicação e atividades relacionadas à formação da inovação responsável na gestão da empresa / marca. A comunicação eficaz é essencial em todo o processo, até o ponto-de-venda e o pós-venda.

Quais são as saídas para transformar a moda em algo rentável e sustentável?
É preciso pensar em modelos de negócios que vão além dos praticados, onde são lineares e existe uma excessiva exploração dos recursos naturais, ou seja, extrair, produzir, descartar e, ao mesmo tempo, a subutilização e sub-aproveitamento de resíduos e descartes gerados pela cadeia têxtil. 

A Economia Circular prevê um ciclo contínuo. Propõe que o valor dos recursos extraídos e produzidos sejam mantidos em circulação através de cadeias produtivas intencionais e integradas. O destino final de um material deixa de ser uma questão de gerenciamento de resíduos, mas parte do processo de design de produtos e sistemas.

Dessa forma, o crescimento econômico se dissocia do consumo crescente e exploração de novos recursos, possibilitando o aproveitamento inteligente dos recursos que já se encontram em uso no processo produtivo. É um conceito que inspira a inovação.

Quais são as novidades para construir a sustentabilidade na moda?
Com toda certeza os brechós são uma tendência clara de sustentabilidade na moda. A noção de que roupas que estão no seu armário podem se transformar em dinheiro, agradando e fazendo bem para alguém é um movimento muito forte. Os grupos online de vendas de roupas semi-novas vem aumentando de modo acelerado e tendem a se multiplicar na próxima década.

Conseguimos perceber que muitos designers de moda estão de olho em lançamentos de novas fibras recicláveis, provenientes das mais diversas matérias-primas e neste ponto a tecnologia tem um papel chave. Em breve teremos fibras recicláveis que possam atender uma grande escala, sem desmatar florestas e intensificar o uso da água.

Outra tendência muito bacana é o uso de novos materiais que sejam mais ecológicos. Embora o algodão venha de uma planta, a indústria do algodão é realmente responsável por 16% dos lançamentos globais de inseticidas! 

Para combater isso, fabricantes têxteis já tem usado materiais como bambu, milho, soja e polpa de madeira para criar alternativas viáveis para o algodão. O uso de corantes naturais para tingimento de peças também será adotado por grandes marcas de luxo e fabricantes de moda sustentável.

A tecnologia vestível também pode ser sustentável? 
Sim e muito! A ideia de adicionar funções extras no vestuário vem caminhando e já vemos algumas soluções interessantes na indústria da moda, escolas de design e artes mundo afora. Um exemplo é o Solar Bikini, do designer Andrew Schneider, de New York. A peça tem dispositivo que recarrega aparelhos portáteis como tocadores de mídia ou telefones celulares. Modelos são produzidos sob encomenda.

Com a mesma finalidade, a jaqueta solar da Zegna Sport é feita de plástico reciclado e apresenta versões com os painéis solares ligados ao colarinho ou a manga. Outro exemplo é o projeto Catalytic Clothing, dos pesquisadores Tony Ryan e Helen Storey, que inspirados na ideia de melhorar a qualidade do ar, criaram roupas com mecanismos capazes de quebrar moléculas poluentes, resultando em roupas aptas a purificar o ar.

Quais são as soluções sustentáveis para reduzirmos o trabalho escravo e infantil, as condições precárias de trabalho e oferecer um trabalho justo?
Segundo uma pesquisa realizada no ano de 2014, cerca de 47 mil brasileiros foram resgatados do trabalho escravo entre 1995 e 2014. Quando uma pessoa tem a sua dignidade ferida ou a sua liberdade restringida, reconhecemos que seus direitos humanos foram violados. O trabalho escravo no Brasil está presente em todas as regiões, na zona urbana e rural. 

A exploração de mão de obra de migrantes estrangeiros (famílias inteiras, incluindo crianças) em situação de vulnerabilidade são características do estado de escravidão no setor têxtil. Em 2011, fiscais identificaram trabalho escravo na cadeia produtiva de uma grande marca brasileira. Após isso, houve uma melhor fiscalização. Porém, tudo continua muito a desejar. Em geral, bolivianos, paraguaios e peruanos são os trabalhadores dessas confecções, na maioria das vezes, clandestinas. Eles moram no mesmo local que trabalham, em condições precárias, cumprem uma jornada exaustiva e, por muitas vezes, não conseguem pagar a divida ilegal cobrado pelo "empregador”, o que os fazem reféns dessa escravidão.

O Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo foi lançado em 2005, onde empresas brasileiras e multinacionais assumiram o compromisso de não manterem negócios com pessoas físicas ou jurídicas que sejam flagradas com trabalho escravo ou em processo judicial. As empresas usam a “Lista Suja”, como base para para gerenciar suas cadeias produtivas.

No início de 2014, o pacto já contava com mais de 400 signatários que, juntos, representavam mais de 35% do PIB brasileiro. Para possibilitar seu fortalecimento e expansão, o comitê gestor decidiu então criar um instituto para gerir e dar sustentabilidade ao pacto. 

A partir daí nasceu, em maio de 2014, o InPACTO – Instituto do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo. No site www.inpacto.org.br os empresários podem encontrar a "Lista Suja”. Unindo esforços e compromissos com a gestão das empresas e na fiscalização dos órgãos competentes, pretende-se aumentar a fiscalização e assim, erradicar o trabalho escravo no Brasil É um longo caminho, mas possível.

Como as marcas podem conscientizar seus consumidores sobre o impacto do consumo acelerado?
Se a marca se comprometer e se transformar para uma gestão mais consciente, consequentemente, suas atitudes e a forma como ela se comunica com seus diferentes públicos passará a mensagem à sociedade como um todo.